A soberania se constrói no momento do uso

Por Louis-Philippe Bellerose

Numa praia no Brasil, comprei algo de um vendedor e paguei escaneando um QR code no celular dele. A transferência caiu em uns dez segundos. Ele não precisou de máquina de cartão. Não pagou porcentagem a ninguém. E, no fim do dia, não ia voltar para casa com o bolso cheio de dinheiro, o que, em muitos lugares, é a parte mais perigosa de tocar um pequeno negócio.

O sistema se chama Pix. O Banco Central do Brasil o criou e lançou em 2020. Hoje tem mais de 170 milhões de usuários, cerca de 93% da população adulta do país. Aproximadamente 60 milhões de brasileiros não têm cartão de crédito nenhum, e o Pix funciona para cada um deles.

Fico pensando nessa experiência desde então, porque ela contraria o jeito como costumamos falar de soberania.

A conversa sobre soberania, no Canadá e em quase todo lugar, é uma conversa sobre propriedade. Quem é dono da infraestrutura. Onde os dados ficam fisicamente. Sobre quais trilhos correm, no fim das contas, nossos pagamentos, nossas nuvens e nossos sistemas críticos. São perguntas reais e eu não quero descartá-las. Mas são perguntas de aquisição, e a aquisição é só uma parte do problema.

É possível ser dono de um sistema por completo e nada mudar. Aqui em Quebec, temos um bom exemplo com o Panier Bleu, uma plataforma de comércio eletrônico local que deveria concorrer com a Amazon, mas que o público geral nunca adotou. Se a opção local é mais lenta, ou mais desajeitada, ou simplesmente não atende à necessidade do usuário, as pessoas vão continuar recorrendo à opção estrangeira. Vão fazer isso sem pensar, por pura conveniência, mil vezes por dia. E, nesse ponto, você ainda não depende de uma infraestrutura soberana. Você tem uma linha soberana num balanço contábil, e uma população cujo comportamento real passa pelo sistema de outra pessoa.

O Pix é interessante justamente porque ninguém o adotou por patriotismo. As pessoas o adotaram porque estava disponível para todos, mas, principalmente, porque era melhor que as alternativas, de maneiras banais, específicas e inteiramente ligadas ao design.

Você envia dinheiro usando um número de telefone, um e-mail ou um CPF. Não um número de conta, não um código bancário. Antes de confirmar, você vê o nome real de quem vai receber, o que dissipa discretamente o medo de mandar dinheiro para o vazio. A liquidação acontece em segundos, a qualquer hora, nos fins de semana e feriados. Para pessoas físicas, é gratuito. Para os lojistas, custa 0,33%, contra cerca de 1,13% no débito e 2,34% no crédito. Um vendedor de rua consegue aceitar um pagamento apenas mostrando um QR code, sem máquina, sem contrato e sem equipamento.

Cada item é uma decisão de design: a escolha do identificador, o retorno de confirmação, a latência, a estrutura de tarifas, a dependência de equipamento. Nenhum deles é uma questão de quem é dono dos trilhos. São decisões sobre como a coisa se comporta na mão de alguém tentando receber por um coco. São essas decisões que fazem 93% de um país usar o sistema.

O sistema, aliás, custou cerca de quatro milhões de dólares americanos para ser construído. Esse número deveria incomodar quem supõe que infraestrutura soberana é, antes de tudo, um problema de gasto.

Senti isso do outro lado quando voltei. De volta ao Canadá, quis enviar ao Interac, o sistema de pagamentos interbancário do Canadá, um conjunto de sugestões de funcionalidades. Parte do que o Pix faz poderia perfeitamente servir de inspiração. Procurei um jeito de falar com eles, e o único canal que encontrei foi um formulário de reclamação. Então usei mesmo assim, e escrevi, mais ou menos, que eles poderiam se inspirar no que o Brasil tinha feito.

Conto essa história porque a ausência de um canal já é, em si, um fato de design. Uma instituição sem uma via de entrada para o retorno dos usuários é uma instituição que vai ser superada no design, e ser superada no design é como se perde a soberania que se achava já ter comprado.

Nada disso é exclusivo dos pagamentos. Troque por infraestrutura de nuvem, prontuários de saúde, sistemas de identidade, software de defesa, ou qualquer uma das iniciativas nacionais de IA que vêm sendo anunciadas. Em cada caso, a conversa pública é sobre propriedade, e a pergunta que importa é a adoção. Se as pessoas que deveriam usar o sistema soberano o acham pior do que a alternativa estrangeira, elas vão contorná-lo, e a soberania vai existir só no papel.

Essa não é uma observação nova para mim, apenas uma versão maior de outra. Escrevi há pouco sobre um experimento de oito semanas para reconectar um grupo, em que os participantes concordaram todos com um canal de comunicação e depois a maioria nunca o usou. A coordenação recaiu discretamente sobre trocas um a um, e a iniciativa perdeu o fôlego. Um canal com que todos concordam não é um canal que todos usam. Isso era verdade para um grupo pequeno com um aplicativo de mensagens. Mostra-se igualmente verdadeiro para uma nação com um sistema de pagamento, uma nuvem ou uma plataforma de defesa. Concordar é aquisição. Adotar é design.

Registro, porque seria estranho não fazer, que o Pix é atualmente alvo de uma ação comercial dos Estados Unidos, e que uma decisão é esperada em breve. Não vou debater esse conflito aqui. Mas há algo a observar que nada tem a ver com quem está certo. Um sistema de pagamento que ninguém usasse não seria alvo de conflito comercial nenhum. Foi a adoção que tornou a coisa real o suficiente para importar, primeiro para os brasileiros, depois para todo mundo.

O que me traz de volta ao ponto de partida. A soberania não se garante no contrato, nem no comunicado à imprensa, nem na inauguração do data center. Ela se garante no momento em que alguém escolhe o seu sistema em vez do outro, porque o seu é melhor. Esse momento é um resultado de design. Se queremos sistemas soberanos, temos que construir sistemas que as pessoas escolheriam mesmo que não fossem soberanos.

Do contrário, seguimos dependentes.

Sobre o autor

Louis-Philippe Bellerose

Fundador e Consultor Principal

Louis-Philippe Bellerose é o fundador e consultor principal da Bellerose XD, uma consultoria estratégica de UX que conecta os objetivos de negócio à realidade dos usuários. Ele trabalha em francês, inglês e português brasileiro.
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